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quinta-feira, 28 de abril de 2011

A Qualidade da Regulação Emocional

No passado dia 14 de abril, a Professora Margarida Gaspar de Matos, coordenadora de um estudo que envolveu 45 países, realizado no âmbito da Organização Mundial de Saúde, divulgou os seus resultados, constatando-se que 15,6% de adolescentes portugueses dos 6º, 8º e 10º anos de escolaridade de uma amostra de 5050 alunos, com médias de idades de 14 anos, autoflagelaram-se mais do que uma vez nos últimos meses.

Segundo este estudo, a percentagem de alunos portugueses que se magoam de propósito, não diverge muito do verificado em países como os Estados Unidos da América, Canadá e Finlândia.

Para esta investigadora, que dirige a equipa de investigação da Faculdade de Motricidade Humana e o Centro da Malária e Doenças Tropicais de Lisboa, estas agressões auto-dirigidas são uma forma distorcida que estes adolescentes encontram de regular as suas emoções, demonstrando dificuldade em geri-las e em expressá-las. Têm também pouca capacidade de fazer amigos, possuem um auto-conceito baixo e envolvem-se frequentemente em quezílias.

Tal como já foi escrito neste blogue (ex: A Importância da Expressividade dos Afectos!; A Importância da Regulação Emocional), uma má regulação emocional, nomeadamente nos primeiros anos vida da criança, é uma forte causa probabilística de uma débil fomentação de amizades saudáveis e duradoras, assim como de uma débil saúde mental (ex: depressão, ansiedade e esquizofrenia).

As emoções são processos que têm como função estabelecer, manter, alterar ou interromper as relações entre o indivíduo e o seu ambiente externo ou interno (ver neste blogue A Importância da Expressividade dos afectos), e o desenvolvimento da capacidade de regulação da expressão emocional é essencial à adaptação do funcionamento socio-emocional.

A importância que o indivíduo dá à experiência social com que se depara dá-lhe informação sobre a situação e fá-lo modificar a emoção que foi gerada, expressando-a num comportamento.
O comportamento adquire a função de organizador das reacções emocionais, fazendo com que cada indivíduo seleccione e monitorize a resposta mais adequada, que vá ao encontro do seu objectivo social. É esta monitorização (inibir, aumentar, ou alterar a reacção emocional) do processo gerador de emoções que se designa por regulação emocional.


Competência emocional
A qualidade da regulação emocional está dependente e é uma consequência dos padrões estabelecidos na relação familiar e tem repercussões na qualidade das suas futuras ligações afectivas (por exemplo, fazer amigos e manter relações amorosas). A sensibilidade e a afectividade dos pais têm um papel importante como facilitador da interiorização de valores sociais/culturais e do desenvolvimento moral dos seus filhos, contribuindo para a qualidade da competência emocional da criança

A competência emocional pode ser descrita como a capacidade de descodificar as próprias emoções (e as dos outros parceiros sociais), de expressá-las e regulá-las de forma coerente, quer em relação à faixa etária de cada um, quer em relação a cada contexto social, de forma a negociar as trocas interpessoais (que acontecem no contacto com o outro) e regular as próprias experiências emocionais.

Uma boa competência emocional permite à criança lidar da melhor forma com as situações sociais com que se vai deparar, nomeadamente a sua aceitação nos grupos de pares, que segundo vários investigadores tem consequências na auto-estima, no sucesso escolar e na saúde mental da criança. Assim, crianças com uma má competência emocional, tendem a desenvolver a médio prazo uma má auto-estima, com consequente insucesso escolar, envolvem-se em comportamentos de risco e poderão desenvolver perturbações psíquicas.

Esta tendência probabilística coaduna-se com a constatação de Margarida Gaspar de Matos que, com base nos resultados da sua investigação, verificou que os adolescentes que se auto-flagelam possuem comportamentos de risco (isolam-se socialmente, fumam, bebem e consomem drogas).

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