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segunda-feira, 27 de março de 2017

Um teatro para todos V

As transformações que ocorrem nos grupos de Teatro e Comunidade acontecem se o colectivo permanecer muito tempo junto e realizar um grande número de actividades ou performances. Caso o grupo seja novo, ou o encontro seja espaçado no tempo ou de curta duração, em vez de acorrer uma transformação, ocorre somente uma “transportação”. O performer através de uma preparação ou aquecimento, deixa o seu dia-a-dia e é transportado para um lugar de sob elevação colectivo, regressando ao seu quotidiano quando a sessão terminar.

A transformação e a transportação, que são conseguidas através do clima ou ambiente colectivo que se proporciona, pode também ser descrito através de um conceito da psicologia “positiva”: O flow.
O que Mihaly Csikszentmihalyi, fundador do conceito, descreve que flow é um estado quase de “transe”, em que o participante deixa de fazer o que toda a gente está a executar, para se fundir nessa actividade. Os participantes podem ter consciência das suas acções, mas é quase uma consciência colectiva, em que “o limite entre o ‘self interior’ e a actividade executada se dissolve”, tornando-se numa unidade. O estado flow acontece quando os participantes sentem que a sua consciência do mundo quotidiano desaparece e se funde com as acções ou actividades que estão a realizar, levando-os a um envolvimento pleno e a uma extrema atenção no todo.

A transportação e a transformação que ocorrem nos grupos de Teatro e Comunidade, durante as suas performances, poderão ser duradoras no que concerne ao desenvolvimento humano, quer individual, quer comunitário. O desenvolvimento pessoal e comunitário é quase inevitável acontecer, pois os grupos de Teatro e Comunidade trabalham, num espaço de expressividade corporal, emocional e sensorial, experienciam a afiliação (segundo Carl Rogers, inerente ao desenvolvimento humano) e assumem o livre controlo das suas vidas, tornando-se mais activos nas decisões da sociedade.

Jacob Levy Moreno (1889-1974), apoiado em estudos sobre o inconsciente e o movimento/acção que surgiram nos finais do século XIX e no princípio do século XX, considerou que um óptimo desenvolvimento pessoal só acontece através de uma liberdade expressiva, como via para a procura de novos caminhos para a vida. Para Moreno, mais do que a utilização de palavras, é somente através da utilização da acção que o individuo encontrará vias alternativas na resolução dos seus problemas, que o ajudará no processo de transformação e da mudança.

Também durante a viragem para o século XX, grandes personalidades da história do teatro, preocupados e sensíveis com as questões da transformação do performer em palco, e de que forma as emoções e criatividade surgiam, criaram métodos e laboratórios para estudarem esses processos.
Um desses grandes nomes, que rompeu com a forma estilizada de fazer teatro nos finais no século XIX e que influenciou grandemente o teatro do século XX, foi Konstantin Stanislavski (1863-1938). Foi ele que desenvolveu o conceito “como se” [as if]. Quando os seus actores apresentavam dificuldades em demonstrar alguma emoção em palco, era-lhes sugerido que desempenham a acção “como se” ela acontecesse na vida real. Assim, Stanislavski salienta a importância que tem o inconsciente do actor na personagem que desenvolve em palco.


Também Jergy Grotowski (1933-1999), nos anos 70, preocupou-se com a criatividade e como ela acontece no ser humano. O trabalho desenvolvido no seu teatro laboratório, estava direcionado para a forma como proporcionar a todos uma redescoberta da experiência teatral e ritual, através de um verdadeiro encontro entre indivíduos. Para Grotowski, é através do mito e do ritual que as pessoas se aproximam mais (cont...)

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